domingo, fevereiro 24, 2008

A Mãe, cem anos depois

- Ajuda-me! Dá-me livros, daqueles que um homem, depois de lê-los, não encontre sossego. É preciso meter-lhes um ouriço debaixo do crânio, um ouriço com espinhos aguçados! Diz à tua gente da cidade, que escreve para vocês, que escreva também para o campo! Que o façam de tal maneira que o campo ferva como pez, que o povo se lance na luta para a vida ou para a morte!
Levantou o braço e, pronunciando distintamente cada palavra, disse em voz surda:
- Curar a morte com a morte, aí está! Portanto, é preciso morrer, para que os homens ressuscitem milhões em toda a Terra. Aí está. É fácil morrer. Que os homens ressuscitem, que se levantem!
A mãe trouxe o samovar, olhando Ribine de soslaio. As suas palavras, duras e fortes, deprimiam-na. E havia nele qualquer coisa que lhe fazia lembrar o marido, também ele arreganhando os dentes, agitando os braços, arregaçando as mangas, também nele vivia a mesma raiva impaciente, embora muda. Este falava. E era menos terrível.

In A Mãe, pág. 127, ed. Caminho, 1986; trad. António Pescada, Obra original de Máximo Gorki

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E assim de repente, apeteceu-me simplesmente voltar...